segunda-feira, 29 de junho de 2009

trampolina # 5

"Escrevo embalando-me, como uma mãe louca a um filho morto."

O último fragmento de texto d´O Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa, foi a inspiração para a criação do texto, da música e das fotos - que se deu, desta vez, simultaneamente.









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letra|música

Os médicos levaram Miguel para uma sala reservada. Disseram que o acidente havia sido fatal, nenhum sobrevivente, e que o corpo de sua mulher estava irreconhecível, lamentavelmente. Miguel repetiu o lamentavelmente como quem degusta um mingau sem gosto. O senhor está bem?, um dos médicos perguntou. Ele respondeu com outra pergunta insossa, Que horas são?

Tirou três meses de licença, no trabalho. Depois de duas semanas em casa, já sentia necessidade de fazer alguma coisa, qualquer coisa. Começou pelos cálculos, conta de luz, água, prestações do carro, do funeral. Sem mais, enterrou-se no sofá e observou as pequenas mudanças da casa que já ia pela quarta semana sem faxina. Frutas podres no arranjo da mesa de centro. Uma, duas baratas ziguezagueando no assoalho empoeirado. Teias de aranha, entre um vaso e outro, entre um livro e outro. Precisava fazer alguma coisa, qualquer coisa.

Decidiu escrever. Jamais havia escrito uma história. Não que se lembrasse. Um caderno, uma caneta e a mesa de jantar era tudo de que precisava para matar o tempo.

Sentou-se. Sentiu a textura lisa da folha de papel com a palma da mão, para logo pousar a ponta da caneta na superfície pautada. Nada aconteceu. A tinta azul se espalhou na pequena região onde o bico da caneta estivera apoiado. O tempo passou pouco, mas passou. Ele desistiu. A caneta tombou e rolou até a beirada da mesa. Não caiu.

Tinha acabado de se levantar, quando algo chamou a sua atenção. Uma coisa se movia no caderno, talvez um inseto. Era isso, ou o pequeno ponto azulado sobre a superfície branca do papel pulsava.

Tornou a sentar, os olhos incrédulos avaliando o sinal. Sim, o ponto pulsava! Um subir e descer ritmado, como um minúsculo coração de tinta. Ele não notou quando um cílio seu caiu sobre a página. Só saiu do transe quando a sua mão direita repousou sobre a folha, segurando a caneta que ele não se lembrava de ter pego de volta.

Levou a caneta na direção do ponto. Miguel suava. A ponta da caneta tocou o sinal pulsante, e ele sentiu como se tivesse acabado de romper a finíssima membrana de um mundo represado. A caneta não se deteve. Palavra atropelando palavra, frase atropelando frase. Miguel não parou para cogitar nada. Apenas escreveu:

“Vou contar a minha história como ela realmente aconteceu. Meu nome não interessa, mas quero que saibam que passei trinta e cinco anos da minha vida receitando remédios para pessoas que não precisavam deles. Isso fez de mim um sujeito de caráter débil. Apesar disso, se vocês querem saber, eu me apaixonei”.

“Era uma manhã de sábado e fazia muito calor, mas eu não abri a janela da sala, por causa do barulho dos carros e da fuligem. Estava sentado no sofá, fazendo nada. Foi quando ouvi um barulho que vinha da janela, bem atrás de mim. Era um ruído agudo, de unha arranhando o vidro. Eu morava no vigésimo primeiro andar”.

“Olhei para trás com a naturalidade de quem não mora no vigésimo primeiro andar e escuta alguém, ou alguma coisa, arranhando o vidro da janela. Para meu espanto, encontrei uma mulher nua, suas mãos e pés grudados ao vidro, como um réptil. Me aproximei. Seus cabelos longos eram alaranjados, assim como os seus olhos, que fitavam os meus. Nas mãos e pés, garras negras e pontiagudas. A pele, uma finíssima membrana translúcida, que deixava entrever o mundo dentro do seu corpo. Minúsculos peixes, ou algo assim, nadavam dentro dela”.

“Arrisquei mais um passo na direção da janela. Mas, tão logo o fiz, a criatura fugiu, como um raio, deixando no vidro um muco transparente e viscoso, que escorria. O calor era insuportável e eu estava paralisado”.

Miguel deixou a caneta sobre a mesa. Estava exausto. Naquela noite, dormiu um sono preto, sem sonhos.

Ao despertar, pela manhã, descobriu uma extensa mancha branca na cabeça, uma faixa que ia da testa à nuca, dividindo a sua cabeleira negra em duas metades iguais. Estranho, pensou, mas não levou o pensamento adiante. Não tomou café. Não lavou o rosto. Precisava seguir com a história:

“Na manhã seguinte, esperei por ela. As horas passando, eu no sofá, a poeira rodopiando nos fachos de luz. Então ela voltou. Me olhou da janela como da primeira vez, a simetria perfeita do rosto de cera, os cabelos soltos ao vento, como um sol enlouquecido. Com cuidado, para não afugentá-la, acenei. Ela acenou de volta. Sorriu. Linda. Criatura. Seus dentes pontiagudos”.

Miguel parou para recobrar o fôlego. Notou que as suas mãos estavam enrugadas. Eram as mãos de um velho.

Movimentou os dedos diante dos olhos. Eram mesmo seus. Tocou, de leve, o rosto. A pele enrugada zombava de seus trinta e cinco anos de idade. Como era possível? Tinha envelhecido, da noite para o dia, os cabelos completamente brancos. Estava cansado, muito cansado. Talvez um fungo, um parasita, fosse a causa da mudança. As mãos vasculharam o corpo em busca de resposta. Nada. A não ser uma última coisa.

O texto.

A ideia, a princípio, lhe pareceu absurda, mas não demorou em fazer todo o sentido.

Desde que começara a escrever, sentia-se cansado. Não fazia outra coisa havia dois dias. Escrevia e só. E quanto mais escrevia, mais cansado ficava. Seu corpo ia murchando, enquanto as páginas chupavam a tinta azul da caneta, inchadas de palavras, como um pernilongo que se estufa de sangue.

Miguel retornou à sala e agarrou o caderno com violência. Talvez, se rasgasse todas aquelas malditas páginas, conseguisse voltar a ser o que era.

Mas ele não conseguiu. A Criatura na janela estava à sua espera, pedia para ser desvendada, só mais uma página, algumas linhas e era tudo. Miguel sentou-se à mesa e, novamente sugado pelo vórtice do texto azul, escreveu:

“Na manhã seguinte, deixei a janela aberta, apesar da fuligem e do barulho, e me escondi atrás de uma pilastra próxima à janela, de modo que a minha criatura não pudesse me ver. Esperei. Não demorou até ela chegar, esguia e destra em seus movimentos. Demorou-se um tanto equilibrada no parapeito, como um símio, mãos e pés agarrados à borda de tijolos. Esperava por mim, a ninfa”.

“Minutos se passaram, até que ela finalmente decidiu entrar na sala, no mais absoluto silêncio, deixando no assoalho um rastro de muco transparente. Tinha cheiro de fruta passada”.

“Aproveitei a sua distração para fechar, de um só golpe, a janela. A Criatura gritou, assustada, ameaçando-me com as suas garras, que só naquele instante eu pude perceber o quão longas e afiadas de fato eram. Recuou até a parede imediatamente atrás de si, os olhos flamejando, os cabelos alaranjados iluminando o cômodo escurecido”.

“Tentei dizer que a amava, mas ela pareceu não entender. Guinchava, me mostrava os dentes pontiagudos, o pobre animalzinho acuado. Me aproximei aos poucos. Precisava abraçá-la, naquele instante, já”.

“Cheguei a tocar a ponta dos dedos em seu cabelo de fogo. Senti o cheiro intenso de fruta passada invadir os meus sentidos. Porém, no exato momento do abraço, a Criatura ergueu o seu dedo indicador, a garra negra em riste, e cortou a própria face”.

“Fez-se um imenso talho horizontal em uma de suas bochechas, por onde saíram os bichos que eu achava serem peixes: pequenos filamentos negros, como cobras, delgadíssimos, que tomaram o chão da sala em questão de segundos. Milhares, milhões deles, escorregadios, moles. O corpo da ninfa se esvaziou. As criaturas rumaram, em fila, até o banheiro. Sumiram no ralo”.

“Foi o fim de tudo. O dela e o meu”.

A caneta caiu da mão cansada de Miguel, rolando até a beirada da mesa. Dessa vez, caiu no chão. O homem era puro osso e pele. Uma fina penugem esverdeada lhe cobria algumas regiões do rosto.

Miguel reuniu um resto de forças e caminhou até o sofá. Foi uma longa e lenta jornada. Sentou. Não enxergou mais nada.

Seu corpo estava irreconhecível, lamentavelmente.

As baratas apareceram para roer o que havia sobrado dele.

No caderno, as letras pulsavam, em uníssono. Vivas.

* * *

Texto: Gabriela Amaral Almeida

Música: Rafael Cavalcanti

Fotos: Matheus Rocha

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Saudações dançantes!

O atraso na postagem de trampolina #5 tem uma boa razão: foto, música e texto dos trampolineiros acabam de migrar para um delicioso suporte: o cinema. Isso ocupa todo o tempo. Mas, acreditem, é por uma boa causa! Confiram um registro informal de ensaio.


video

sexta-feira, 27 de março de 2009

trampolina # 4

Trampolina da vez: primeiro, a música. Depois, as fotos. E então, o conto.








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letra|música

A janela da sala precisava de cortinas. A sala precisava de móveis. No velho sofá-cama, J. dormia abraçado a R., que dormia abraçado a uma almofada. O sol invadia o ambiente, e os corpos enlaçados lembravam os garavetos de uma fogueira apagada. R. ronronava, como um gato refém de mãos dóceis. Era o único som que se ouvia, o de R. ronronando. Não demoraria até um deles acordar. E depois o outro.

J. abriu os olhos, mas permaneceu imóvel, como um camaleão consciente da fragilidade de seu disfarce. Olhou demoradamente para a nuca de R., tão próxima de si, que deixara de ser nuca para ser somente pele. J. tornou a fechar os olhos, e um leque de pregas se abriu na extremidade de cada olho. Era porque sorria. Com certeza R. sonhava, Mas com o quê?, J. pensou. E, antes mesmo que ele pudesse invadir o sonho imaginado do outro, o outro despertou.

Olharam-se por alguns segundos, R. entre bocejos, J. domando o sorriso que já lhe ia pelas orelhas. R. comentou alguma coisa sobre o sol que invadia a sala e esfregou os olhos e se espreguiçou e levantou. O braço direito de J. estava dormente de tanto tempo na mesma posição. R. perguntou que horas eram, J. disse Sete e meia, e prometeu colocar cortinas até o final da semana. R. disse Não se preocupe comigo, e saiu. O braço de J. começou a formigar.

Quando R. voltou do banheiro, J. dobrava os lençóis, Estou pensando em comprar uma estante pra sala, o que você acha?, ele perguntou. R. disse Legal e foi até a janela. Acendeu um cigarro e observou o movimento fraco do trânsito, Aqui é sempre assim? J. deixou os lençóis sobre o sofá-cama e foi até R. Beijou-lhe a nuca e deu uma espiada nos carros, Durante a semana costuma ser mais movimentado, respondeu. O silêncio foi a deixa para o beijo, que o sol não deixou vingar. É, eu preciso mesmo colocar as cortinas, J. insistiu. Não esquenta, R. disse, jogando o toco de cigarro pela janela e fazendo um carinho no queixo de J.

R. teria que ir embora antes das nove, naquele sábado. Antes disso, J. serviu-lhe café e acariciou-lhe os cabelos enquanto ele amarrava os cadarços. Você precisa ir mesmo?, J. perguntou, e R. fez que sim com um meneio rápido e curto. Despediram-se com um abraço de porta e um beijo, que o elevador interrompeu. R. disse Tchau. J. segurou a sua mão até a última ponta do último dedo escorregar para dentro do elevador. Te espero hoje à noite, J. disse, e as portas corrediças se fecharam.

A sala precisava de móveis, talvez duas estantes, ao invés de uma. J. foi até a janela, tentou adivinhar as suas dimensões com as mãos. Estendeu, ali, o lençol que estava sobre o sofá. O pano coava o sol, mas a sala ainda era amplo deserto alaranjado naquela manhã de sábado.

. . .

Texto: Gabriela Amaral Almeida

Música: Rafael Cavalcanti

Fotos: Matheus Rocha



sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

trampolina # 3

Trampolina da vez: o conto surgiu primeiro. Em seguida, a música. Por último, a escolha das fotos.









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música

A mãe estava recostada numa espreguiçadeira, os joelhos levemente flexionados numa pose desconfortável, folheando uma revista e espiando o movimento do clube por cima dos óculos escuros estilo Jackie O. Quando o garçom chegou com as bebidas – refrigerante e água de coco –, ela acenou para a piscina infantil a poucos metros de onde estava a sua mesa, tirou os óculos, improvisou uma viseira com a mão direita e gritou “vem, Paloma!”.

A menina atravessou a piscina andando, a água batia-lhe nos joelhos. As outras crianças usavam bóias nos braços e cintura, e acenavam para as mães e babás que as monitoravam da borda. O maiô vermelho e desbotado de Paloma estava seco.

De pé, com uma toalha estendida de mão à mão, a mãe esperava por ela, que só se deixou abraçar porque sentia frio. “Pedi uma coca-cola pra você”, disse a mãe. Paloma não respondeu, olhava os seus pés enrugados. A mãe tornou a tirar os óculos, “o que foi agora?”. As unhas da menina estavam roxas. “Quero ir embora”, Paloma disse. “A gente acabou de chegar, minha filha”, o “minha filha” soou mais alto que o resto. “Eu queria nadar na piscina grande”, balbuciou a menina. Sem forças, a mãe recostou-se na cadeira e sorveu lentamente a água de coco com o canudo.

Minutos depois, Paloma entrava na piscina olímpica do clube, de mãos dadas com a mãe. Desceram uma escada de piso áspero até chegarem ao pavimento de azulejos. Do contato com a água, o maiô vermelho de Paloma, de um vermelho débil, tingiu-se de bordô. A menina estalou a língua de satisfação, a água batia-lhe no busto. A mãe advertiu “não saia de perto de mim!”.

Paloma nadava ao redor da mãe. Enquanto isso, outra mãe e sua filha se divertiam ali perto. A menina já tinha o corpo de uma mulher formada, mas se comportava como a criança de doze anos que devia ser, “talvez até menos”, pensou a mãe de Paloma. As pernas brancas e roliças da menina iam enlaçadas à cintura da mãe, uma mulherzinha franzina que a embalava como a um bebê concebido noutra escala. Tudo ia bem, até a mulherzinha resolver colocar a filha para nadar.

“Eu posso ir no fundo? Eu juro que vou pela borda, por favor, por favor, por favor!”, Paloma insistia. A mãe primeiro disse “nem pensar!”, mas quando a outra menina começou a chorar e a espernear porque a mulherzinha franzina tinha se afastado dela alguns centímetros, a mãe consentiu “vá, mas vá pela borda”.

Paloma foi.

Aos poucos, a mulherzinha franzina conseguiu tranqüilizar a filha. Da borda da piscina, um homem barbudo acenou para a menina, que acenou de volta, com o meio sorriso dos que choram. Tudo aquietou.

A mãe, então, lembrou de Paloma. Olhou em direção à parte funda da piscina. Nem sinal da menina. Ela levou a mão à barriga, sentiu o tecido liso do maiô, estava gelada por dentro, a água de coco redemoinhava no estômago.

“Paloma se foi”, o pensamento invadiu a cabeça da mãe.

Segundos depois, a filha emergiu da água, tirou a franja dos olhos, agarrou-se à borda e, improvisando um megafone com a mão direita, berrou “eu toquei os pés no fundo, mãe!”.

. . .

Texto: Gabriela Amaral Almeida

Música: Rafael Cavalcanti

Fotos: Matheus Rocha



quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

trampolina # 2








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música

As mãos agarradas às barras da jaula, e os nós dos dedos esbranquiçados, era aflição, porque o lábio de cima roçava no de baixo, e aquela cavidade profunda do buço tinha juntado suor. Não era só o calor, aquele calor pegajoso que fazia suar a parte de dentro das coxas, grudadas do tempo que ela ficou de pé, só observando. Era mesmo aflição, o bolo que subia e descia do estômago à garganta e daí ao estômago novamente, um ioiô de azia, que transformava a saliva em espuma.

Não ventava.

Era fim de tarde e o zoológico estava vazio. Na jaula do leão, o leão. Magro, escornado em um canto, à sombra. Do lado de fora, Judith Carolina, pigarreando para falar nada. As mãos dormentes de segurar as barras da jaula, ela toda atenta à juba rala do leão indolente, um bocejo após outro bocejo, e o fedor de urina, fezes e suor, naquele calor de mil fogueiras, no visgo.

Esperava Galdir, Carolina. O “Judith” ela deixava para as tias e os formulários médicos, para ele era “Carol”, aquele nome breve de moça bem resolvida.

Sem mais, o leão se levantou e se espreguiçou e bocejou e rugiu, assustando Carol, que sorriu, disfarçando o susto para ninguém.

O bicho andou, exalando um cheiro ocre, de pimenta curtida, quente e áspero e rude. Zanzava em círculos, as ancas ossudas içando a pele mostarda, cor de barraca de camping. Ela fungava, o cheiro curtido do leão lhe rasgava os sentidos nariz adentro.

Não ventava.

Um homem passou empurrando um carro de pipoca vazio e foi embora.

Na jaula, o leão aquietou.

Judith Carolina foi tomar um ar longe dali, estava tonta, mareada, mas não era calor. Abanou o rosto com as mãos vermelhas da ferrugem, conseguiu respirar, mais devagar e mais devagar, sentada em um banco de ferro, devagar devagar, era a aflição, “não dê comida aos animais”, a placa da jaula vazia de algum bicho escondido, ali perto.

Galdir chegou.

Ela sorriu e se levantou, enxugando o buço com o dorso da mão.

Ele cheirava a plástico, pó e ferro, a gola amarelada da camisa pólo branca, o pescoço vermelho, curtido do sol, as mãos grandes, os pelos escuros nos nós dos dedos, os olhos castanhos e o cabelo rareando nas têmporas. “Carol”, ele disse.

E Carol abraçou Galdir, porque queria sentir o cheiro, de nuca, de cabelo, de um resto de sabonete de flores e da vaga lembrança do perfume aquele, antes mesmo do beijo tão esperado de um segundo encontro, era preciso o cheiro, ela queria o cheiro.

Quando os portões de ferro do zoológico se fecharam, eles ainda não tinham saído.

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Fotos: Matheus Rocha

Texto: Gabriela Amaral Almeida

Música: Rafael Cavalcanti

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

trampolina # 1








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música

No sonho, tinha braços e pernas. Despertei humana.

O trem passa veloz com suas janelas misturadas. Até parar. Em cada janela, uma cabeça. É assim que eu vejo o trem, mesmo quando ele está parado: janela-janela-janela-janela-cabeça-cabeça-cabeça-cabeça. Eu vejo tudo em quantidade. Agora, eu vejo vinte mulheres caminhando em minha direção. Ela é uma só, vê apenas uma de mim. Se é que vê. Ela senta do meu lado, mas não fala nada. Típico. No próximo trem, ela vai embora.

Foi.

Perto da máquina de refrigerante, um homem toca violino. As pessoas passam, olham e vão embora. Só uma velha fica até o fim da música. Eu gosto das partes em que ele desafina, é quando o violino zumbe. Quando ele para de tocar, porque vai pegar um refrigerante, a velha vai embora. Vai rápido, que é pra não ver o olho do homem pedindo. O olho do homem é fundo e opaco. A velha voa e some.

Agora, sou eu quem vai voando ali na lanchonete. A lanchonete é suja e cheia de mesas com restos de comida. Perto dali, um guarda olha pra todos os lugares. Ele usa uns óculos espelhados, as lentes verdes, tudo na estação reflete naquelas lentes, é lindo! Na lanchonete, tem uma mesa com xícaras, resto de comida e um pacote bem grande.

Quando eu chego bem perto da mesa, descubro que o pacote não é um pacote, mas um bebê. Não é comum encontrar bebês em mesas de lanchonetes. Ele está com os olhos fechados. Ou dorme ou está morto. Não vejo nem pai nem mãe perto. Ele está só.

Eu me aproximo, devagar, e pouso em sua boca, que é um lugar quente e úmido por onde sai o ar que ele respira. Ele não está morto. Eu esfrego as minhas patas dianteiras – no frio, é a melhor coisa que a gente faz. Esfregar. Chapo chapo chapo.

Foi quando o guarda veio em nossa direção, minha e do bebê. Ele veio com seus óculos de lentes verdes que refletem tudo. Nós, moscas, temos algo em comum com os humanos: desconfiamos. Então eu voei, pousei numa xícara de outra mesa e fiquei só vendo, de longe. O guarda chegou. Vasculhou a mesa onde estava o bebê, vasculhou o bebê, com aqueles óculos verdes, imensos. Depois, enfiou a mão em um dos bolsos, tirou um maço de cigarros de lá. E foi embora, sem olhar pra trás. Rápido.

O bebê ficou lá até um garçom chegar para limpar a mesa. Ele levou as xícaras, os talheres, os copos. O bebê, que era grande, ele colocou em um saco plástico. Passou um pano na mesa, deixou tudo nos trinques e voltou pra cozinha, nos fundos.

Logo depois, a velha que fugiu do músico chegou e sentou naquela mesa. Pediu uma sopa pro garçom. Esfregou uma mão na outra. Chapo chapo chapo. O garçom pediu pra ver o dinheiro antes. Ela tirou um bolo de moedas e notas amarrotadas do bolso e jogou tudo na mesa. O garçom saiu pisando forte. Eu esperei ele sumir e comecei a voar ao redor da velha, só pra provocar. Mas ela nem ligou. Ela gostava do zumbido.

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Fotos: Matheus Rocha

Texto: Gabriela Amaral Almeida

Música: Rafael Cavalcanti