O último fragmento de texto d´O Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa, foi a inspiração para a criação do texto, da música e das fotos - que se deu, desta vez, simultaneamente.
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letra|música
Os médicos levaram Miguel para uma sala reservada. Disseram que o acidente havia sido fatal, nenhum sobrevivente, e que o corpo de sua mulher estava irreconhecível, lamentavelmente. Miguel repetiu o lamentavelmente como quem degusta um mingau sem gosto. O senhor está bem?, um dos médicos perguntou. Ele respondeu com outra pergunta insossa, Que horas são?
Tirou três meses de licença, no trabalho. Depois de duas semanas em casa, já sentia necessidade de fazer alguma coisa, qualquer coisa. Começou pelos cálculos, conta de luz, água, prestações do carro, do funeral. Sem mais, enterrou-se no sofá e observou as pequenas mudanças da casa que já ia pela quarta semana sem faxina. Frutas podres no arranjo da mesa de centro. Uma, duas baratas ziguezagueando no assoalho empoeirado. Teias de aranha, entre um vaso e outro, entre um livro e outro. Precisava fazer alguma coisa, qualquer coisa.
Decidiu escrever. Jamais havia escrito uma história. Não que se lembrasse. Um caderno, uma caneta e a mesa de jantar era tudo de que precisava para matar o tempo.
Sentou-se. Sentiu a textura lisa da folha de papel com a palma da mão, para logo pousar a ponta da caneta na superfície pautada. Nada aconteceu. A tinta azul se espalhou na pequena região onde o bico da caneta estivera apoiado. O tempo passou pouco, mas passou. Ele desistiu. A caneta tombou e rolou até a beirada da mesa. Não caiu.
Tinha acabado de se levantar, quando algo chamou a sua atenção. Uma coisa se movia no caderno, talvez um inseto. Era isso, ou o pequeno ponto azulado sobre a superfície branca do papel pulsava.
Tornou a sentar, os olhos incrédulos avaliando o sinal. Sim, o ponto pulsava! Um subir e descer ritmado, como um minúsculo coração de tinta. Ele não notou quando um cílio seu caiu sobre a página. Só saiu do transe quando a sua mão direita repousou sobre a folha, segurando a caneta que ele não se lembrava de ter pego de volta.
Levou a caneta na direção do ponto. Miguel suava. A ponta da caneta tocou o sinal pulsante, e ele sentiu como se tivesse acabado de romper a finíssima membrana de um mundo represado. A caneta não se deteve. Palavra atropelando palavra, frase atropelando frase. Miguel não parou para cogitar nada. Apenas escreveu:
“Vou contar a minha história como ela realmente aconteceu. Meu nome não interessa, mas quero que saibam que passei trinta e cinco anos da minha vida receitando remédios para pessoas que não precisavam deles. Isso fez de mim um sujeito de caráter débil. Apesar disso, se vocês querem saber, eu me apaixonei”.
“Era uma manhã de sábado e fazia muito calor, mas eu não abri a janela da sala, por causa do barulho dos carros e da fuligem. Estava sentado no sofá, fazendo nada. Foi quando ouvi um barulho que vinha da janela, bem atrás de mim. Era um ruído agudo, de unha arranhando o vidro. Eu morava no vigésimo primeiro andar”.
“Olhei para trás com a naturalidade de quem não mora no vigésimo primeiro andar e escuta alguém, ou alguma coisa, arranhando o vidro da janela. Para meu espanto, encontrei uma mulher nua, suas mãos e pés grudados ao vidro, como um réptil. Me aproximei. Seus cabelos longos eram alaranjados, assim como os seus olhos, que fitavam os meus. Nas mãos e pés, garras negras e pontiagudas. A pele, uma finíssima membrana translúcida, que deixava entrever o mundo dentro do seu corpo. Minúsculos peixes, ou algo assim, nadavam dentro dela”.
“Arrisquei mais um passo na direção da janela. Mas, tão logo o fiz, a criatura fugiu, como um raio, deixando no vidro um muco transparente e viscoso, que escorria. O calor era insuportável e eu estava paralisado”.
Miguel deixou a caneta sobre a mesa. Estava exausto. Naquela noite, dormiu um sono preto, sem sonhos.
Ao despertar, pela manhã, descobriu uma extensa mancha branca na cabeça, uma faixa que ia da testa à nuca, dividindo a sua cabeleira negra em duas metades iguais. Estranho, pensou, mas não levou o pensamento adiante. Não tomou café. Não lavou o rosto. Precisava seguir com a história:
“Na manhã seguinte, esperei por ela. As horas passando, eu no sofá, a poeira rodopiando nos fachos de luz. Então ela voltou. Me olhou da janela como da primeira vez, a simetria perfeita do rosto de cera, os cabelos soltos ao vento, como um sol enlouquecido. Com cuidado, para não afugentá-la, acenei. Ela acenou de volta. Sorriu. Linda. Criatura. Seus dentes pontiagudos”.
Miguel parou para recobrar o fôlego. Notou que as suas mãos estavam enrugadas. Eram as mãos de um velho.
Movimentou os dedos diante dos olhos. Eram mesmo seus. Tocou, de leve, o rosto. A pele enrugada zombava de seus trinta e cinco anos de idade. Como era possível? Tinha envelhecido, da noite para o dia, os cabelos completamente brancos. Estava cansado, muito cansado. Talvez um fungo, um parasita, fosse a causa da mudança. As mãos vasculharam o corpo em busca de resposta. Nada. A não ser uma última coisa.
O texto.
A ideia, a princípio, lhe pareceu absurda, mas não demorou em fazer todo o sentido.
Desde que começara a escrever, sentia-se cansado. Não fazia outra coisa havia dois dias. Escrevia e só. E quanto mais escrevia, mais cansado ficava. Seu corpo ia murchando, enquanto as páginas chupavam a tinta azul da caneta, inchadas de palavras, como um pernilongo que se estufa de sangue.
Miguel retornou à sala e agarrou o caderno com violência. Talvez, se rasgasse todas aquelas malditas páginas, conseguisse voltar a ser o que era.
Mas ele não conseguiu. A Criatura na janela estava à sua espera, pedia para ser desvendada, só mais uma página, algumas linhas e era tudo. Miguel sentou-se à mesa e, novamente sugado pelo vórtice do texto azul, escreveu:
“Na manhã seguinte, deixei a janela aberta, apesar da fuligem e do barulho, e me escondi atrás de uma pilastra próxima à janela, de modo que a minha criatura não pudesse me ver. Esperei. Não demorou até ela chegar, esguia e destra em seus movimentos. Demorou-se um tanto equilibrada no parapeito, como um símio, mãos e pés agarrados à borda de tijolos. Esperava por mim, a ninfa”.
“Minutos se passaram, até que ela finalmente decidiu entrar na sala, no mais absoluto silêncio, deixando no assoalho um rastro de muco transparente. Tinha cheiro de fruta passada”.
“Aproveitei a sua distração para fechar, de um só golpe, a janela. A Criatura gritou, assustada, ameaçando-me com as suas garras, que só naquele instante eu pude perceber o quão longas e afiadas de fato eram. Recuou até a parede imediatamente atrás de si, os olhos flamejando, os cabelos alaranjados iluminando o cômodo escurecido”.
“Tentei dizer que a amava, mas ela pareceu não entender. Guinchava, me mostrava os dentes pontiagudos, o pobre animalzinho acuado. Me aproximei aos poucos. Precisava abraçá-la, naquele instante, já”.
“Cheguei a tocar a ponta dos dedos em seu cabelo de fogo. Senti o cheiro intenso de fruta passada invadir os meus sentidos. Porém, no exato momento do abraço, a Criatura ergueu o seu dedo indicador, a garra negra em riste, e cortou a própria face”.
“Fez-se um imenso talho horizontal em uma de suas bochechas, por onde saíram os bichos que eu achava serem peixes: pequenos filamentos negros, como cobras, delgadíssimos, que tomaram o chão da sala em questão de segundos. Milhares, milhões deles, escorregadios, moles. O corpo da ninfa se esvaziou. As criaturas rumaram, em fila, até o banheiro. Sumiram no ralo”.
“Foi o fim de tudo. O dela e o meu”.
A caneta caiu da mão cansada de Miguel, rolando até a beirada da mesa. Dessa vez, caiu no chão. O homem era puro osso e pele. Uma fina penugem esverdeada lhe cobria algumas regiões do rosto.
Miguel reuniu um resto de forças e caminhou até o sofá. Foi uma longa e lenta jornada. Sentou. Não enxergou mais nada.
Seu corpo estava irreconhecível, lamentavelmente.
As baratas apareceram para roer o que havia sobrado dele.
No caderno, as letras pulsavam, em uníssono. Vivas.
* * *
Texto: Gabriela Amaral Almeida
Música: Rafael Cavalcanti
Fotos: Matheus Rocha









